Com recordes de geração eólica e solar, a região que mais sofreu com a seca agora exporta energia limpa para o restante do país.
Há algo paradoxal na história energética do Nordeste brasileiro. A mesma região que conviveu por décadas com a escassez hídrica, com a irregularidade das chuvas e com a dependência de cisternas e políticas emergenciais tornou-se, nas últimas décadas, a maior produtora de energia limpa do Brasil. O vento que ressecava as plantações passou a alimentar turbinas. O sol que castigava o sertão passou a carregar painéis solares. E o Rio Grande do Norte, estado que concentra algumas das condições naturais mais favoráveis do continente, está no epicentro dessa transformação.
A energia eólica se consolidou como a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, representando cerca de 15% da capacidade instalada, com o Brasil alcançando uma média de 23.699 MW de potência eólica instalada em 2024. Esse crescimento não aconteceu de forma uniforme pelo território nacional. Ele se concentrou justamente onde os ventos são mais fortes e mais constantes: no Nordeste, e especialmente no Rio Grande do Norte. Revista Fórum
Os números confirmam o protagonismo regional. A Bahia responde por 34,05% de toda a potência eólica instalada no país, com 533 parques, seguida pelo Rio Grande do Norte, com 30,7% e 368 parques em operação. Juntos, os dois estados concentram quase dois terços de toda a geração eólica brasileira. Para o restante do país, isso significa que acender uma lâmpada em São Paulo ou ligar um ar-condicionado no Rio de Janeiro tem cada vez mais a ver com o vento que sopra no interior nordestino. Revista Fórum
Como o Brasil chegou a essa posição no cenário global
A trajetória do Brasil até se tornar uma das grandes potências mundiais em energia renovável não foi por acaso. Ela resultou de décadas de políticas de incentivo, de leilões de energia bem estruturados e de um ambiente regulatório que atraiu investidores nacionais e estrangeiros. Entre 2011 e 2020, o setor eólico gerou mais de 190 mil postos de trabalho no país, em uma média de 10,7 empregos por megawatt instalado. Revista Fórum
Esses empregos não são apenas números de relatório. Eles significam técnicos de manutenção formados em Mossoró, engenheiros contratados em Natal, trabalhadores da construção civil em municípios que antes dependiam quase que exclusivamente da agricultura de subsistência. A cadeia produtiva das renováveis criou uma nova classe de trabalhadores qualificados no sertão nordestino, com impactos que vão além da folha de pagamento.
O ministro de Minas e Energia estimou que apenas o leilão de transmissão de 2026 deve gerar 60 mil empregos diretos e indiretos no Nordeste. Isso coloca o setor energético como um dos principais vetores de desenvolvimento regional para os próximos anos, ao lado da agropecuária e do turismo. E o Rio Grande do Norte, com sua posição consolidada de maior receptor de incentivos da Sudene no setor, está bem posicionado para capturar boa parte dessas oportunidades. Investindoporai
O que vem por aí: hidrogênio verde e novos horizontes
Se o presente já impressiona, o futuro da matriz energética renovável no Brasil é ainda mais ambicioso. A próxima fronteira é o hidrogênio verde, um combustível produzido a partir de energia renovável que pode ser exportado para países que precisam descarbonizar suas indústrias pesadas e seu transporte de longa distância. E, nessa corrida, o Brasil sai na frente por ter construído uma base de renováveis que poucos países conseguiram replicar.
A projeção de crescimento econômico do Nordeste entre 2026 e 2034 é de 3,1%, puxada pelas renováveis, com investimentos totais previstos na região podendo alcançar R$ 750 bilhões somando eólica, petróleo, aeroportos e infraestrutura. Esse montante representa uma oportunidade histórica para uma região que historicamente recebeu muito menos investimento per capita do que as regiões Sul e Sudeste do país. Investindoporai
O desafio que se apresenta agora não é mais de convencer investidores a apostar no potencial renovável do Nordeste. Essa batalha já foi vencida. O desafio atual é de infraestrutura: a capacidade de escoar o excedente de energia renovável ao Sudeste depende da execução integral dos projetos de transmissão previstos, obras sujeitas a prazos regulatórios e condições de mercado que nem sempre se cumprem no tempo esperado. Superar esse gargalo é o que vai determinar se o Brasil conseguirá aproveitar ao máximo o vento e o sol que a natureza colocou no Nordeste. Investindoporai
Fontes: Revista Fórum | Investindo Por Aí | Movimento Econômico
Autor: Diego Rodríguez Velázquez


