O Rio Grande do Norte, historicamente reconhecido como um dos maiores produtores de energia eólica e solar do país, enfrenta um problema que contrasta com essa vocação: o estado lidera o desperdício de energia renovável entre os estados nordestinos no acumulado deste ano.
O que mostram os números
Entre janeiro e 20 de julho, 23,2% de toda a capacidade de geração eólica e solar do estado foi limitada pelo curtailment, cortes feitos pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico para equilibrar o sistema diante de gargalos de transmissão ou excesso de oferta. O índice potiguar está acima da média nacional, que é de 19,1%. Na prática, quase um quarto de toda a energia limpa que poderia ser aproveitada no estado simplesmente não chega a ser usada. Tribuna do NorteTribuna do Norte
Dos 4.091 MW médios de capacidade que o RN poderia gerar no período, 951 MW médios foram cortados. As usinas eólicas foram as mais afetadas, com 23,9% de restrição, equivalentes a 843 MW médios, enquanto as usinas solares tiveram 19,2% de corte, ou 108 MW médios. Curiosamente, o cenário nacional caminha no sentido oposto: no país como um todo, são as usinas fotovoltaicas que lideram as restrições, com 23%, à frente das eólicas, que somam 17,5%. Tribuna do Norte + 2
O problema não é falta de vento ou de sol. É estrutural. As linhas de transmissão que deveriam escoar toda essa energia gerada no litoral e no interior potiguar não acompanharam o ritmo acelerado de instalação de novos parques nos últimos anos. Quando a oferta supera a capacidade da rede em transportar essa eletricidade, o operador nacional precisa limitar a geração para não comprometer a estabilidade do sistema elétrico.
Entre os demais estados nordestinos, o Ceará aparece na sequência com 22,3% de perdas, seguido por Bahia, com 19,6%, Pernambuco, com 17,6%, Piauí, com 14,7%, Maranhão, com 13,3%, e Paraíba, com 12%. O RN, portanto, não está sozinho no desafio, mas se destaca justamente por concentrar a maior proporção de energia perdida entre todos. Tribuna do Norte
O que especialistas apontam como solução
Para especialistas do setor elétrico, o problema tem saída, mas exige investimento coordenado. O consultor Sérgio Azevedo defende que é preciso ampliar a transmissão, implantar baterias, atrair novas cargas de consumo e ressarcir as empresas pela energia que estavam aptas a produzir, mas não puderam entregar ao sistema. Na avaliação dele, o RN precisa deixar de atuar apenas como exportador de energia bruta e passar a atrair grandes consumidores, como data centers, produção de hidrogênio, indústrias eletrointensivas e mineração com beneficiamento local. Tribuna do NorteTribuna do Norte
Essa mudança de perfil ajudaria a consumir localmente parte da energia que hoje é gerada e descartada, reduzindo a dependência exclusiva da rede de transmissão para escoar a produção a outras regiões do país.
Armazenamento como aposta para os próximos anos
Uma das apostas para mitigar o problema é a expansão da capacidade de armazenamento de energia. Para este ano, em que o RN regulamentou o licenciamento ambiental voltado a essa tecnologia, há previsão de leilões específicos de armazenamento. Baterias de grande porte permitiriam guardar o excedente gerado em horários de pico e liberá-lo posteriormente, quando a demanda do sistema aumentar. Tribuna do Norte
Nesse contexto, o Ministério de Minas e Energia publicou, em 1º de junho, uma portaria normativa trazendo diretrizes para os dois primeiros leilões de reserva voltados a esse tipo de estrutura, com o Rio Grande do Norte entre os estados nordestinos contemplados por critérios de bonificação. Mercurio Partners
O desafio chega em um momento estratégico para o RN, que vem sendo apresentado por autoridades estaduais e federais como um polo emergente de tecnologia limpa, com projetos de hidrogênio verde e, mais recentemente, planos ligados a infraestrutura de processamento de dados. Resolver o gargalo de transmissão é condição para que esse potencial não continue sendo, em parte, jogado fora.
Enquanto os leilões de armazenamento e as obras de reforço da rede não avançam, o estado segue produzindo mais energia limpa do que consegue efetivamente colocar em circulação, um paradoxo que expõe os limites da infraestrutura diante do crescimento acelerado da geração renovável no Nordeste.
Fontes:
https://tribunadonorte.com.br/economia/rn-lidera-cortes-de-geracao-no-ne-no-acumulado-de-2026/


