Enquanto a maior parte da soja brasileira ainda viaja de caminhão até o porto, um volume crescente da produção já segue por rios navegáveis, reduzindo distância, custo e desgaste das estradas do país. O empresário Wander Aguilera Almeida observa essa transição com interesse particular, já que o transporte hidroviário representa uma das alternativas mais promissoras para aliviar a dependência histórica das rodovias brasileiras.
Diferente da malha rodoviária, que se espalha por praticamente todo o território, as hidrovias aproveitam rios já existentes, exigindo investimento concentrado em pontos específicos de infraestrutura em vez de quilômetros intermináveis de pavimentação. Os tópicos a seguir detalham como esse modal funciona e por que produtores de regiões específicas já sentem seus benefícios na prática.
Como funciona o escoamento de grãos por hidrovia no Brasil?
Duas rotas se destacam no transporte fluvial de grãos atualmente: a hidrovia Tietê-Paraná, que conecta produtores de Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais ao porto de Santos, e a hidrovia do rio Madeira, que liga o Centro-Oeste a portos do Norte do país. Wander Aguilera Almeida explica que ambas funcionam por meio de comboios de barcaças empurradas por um único rebocador, capazes de transportar volumes equivalentes a centenas de caminhões em uma única viagem fluvial.
A carga geralmente percorre trecho inicial de caminhão até o terminal de transbordo, onde é transferida para as embarcações, seguindo depois por rio até o destino final ou até outro ponto de conexão com ferrovia ou porto marítimo mais próximo da rota escolhida.
Esse formato intermodal, que combina diferentes meios de transporte ao longo do mesmo trajeto, tornou-se a forma mais eficiente de aproveitar as vantagens de cada modal sem depender exclusivamente de nenhum deles isoladamente, distribuindo o risco entre diferentes etapas da operação.
Que vantagens de custo o transporte fluvial oferece?
Estudos do setor logístico apontam que o transporte hidroviário pode custar até um terço a menos do que a alternativa puramente rodoviária para o mesmo trajeto, mesmo somando o custo de transbordo nas pontas da operação. Segundo Wander Aguilera Almeida, essa diferença se torna ainda mais relevante em anos de safra recorde, quando a demanda por transporte rodoviário pressiona o frete para cima justamente no pico da colheita.

Além da economia direta, esse modal reduz também o desgaste de rodovias já sobrecarregadas, além de emitir consideravelmente menos poluentes por tonelada transportada em comparação ao transporte por caminhão ao longo da mesma distância.
Que desafios ainda limitam o avanço desse modal?
Períodos de seca prolongada podem reduzir o nível dos rios a ponto de inviabilizar temporariamente a navegação, obrigando produtores a recorrer a alternativas rodoviárias mais caras justamente quando menos esperavam essa mudança de plano. Wander Aguilera Almeida trata essa vulnerabilidade climática como um dos principais pontos de atenção de quem planeja depender fortemente desse modal ao longo do ano inteiro.
Investimentos em dragagem, aprofundamento de canais e modernização de eclusas seguem em andamento em diferentes trechos navegáveis, mas o ritmo dessas obras ainda não acompanha totalmente o crescimento da demanda por escoamento fluvial.
Como o produtor pode se beneficiar dessa alternativa logística?
Avaliar a distância real até o terminal de transbordo mais próximo, e não apenas até o porto final, ajuda o produtor a calcular com precisão se a rota hidroviária realmente compensa financeiramente para sua propriedade específica, orienta Wander Aguilera Almeida. Consultar cooperativas e intermediadores que já operam nessas rotas geralmente traz informação prática que dificilmente aparece em levantamentos genéricos sobre o tema.
Diversificar entre rotas rodoviárias, ferroviárias e hidroviárias, sempre que a localização da propriedade permitir essa combinação, reduz a dependência de um único modal e protege o produtor de imprevistos sazonais que afetam apenas uma dessas alternativas de escoamento. Acompanhar de perto o nível dos rios durante a época de colheita, junto com boletins específicos do setor, evita surpresas de última hora e permite planejar com antecedência qual combinação de transporte fará mais sentido naquele ano específico.


