Para o engenheiro Odair José Mannrich, levar esgotamento sanitário a comunidades rurais, periféricas e de difícil acesso exige soluções diferentes das adotadas nos centros urbanos. O marco legal do saneamento, de 2020, fixou a meta de 90% da população com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Nas áreas de baixa densidade ou relevo acidentado, porém, estender redes convencionais até uma estação distante custa caro e leva anos. Sistemas modulares e descentralizados, que tratam o esgoto perto de onde ele é gerado, encurtam esse caminho.
Tratamento anaeróbio em unidades compactas
Reatores anaeróbios de fluxo ascendente, conhecidos pela sigla UASB, tratam esgoto doméstico em unidades compactas e sem consumo de energia elétrica. O esgoto entra pela base e atravessa uma manta de lodo, onde bactérias que vivem sem oxigênio degradam a matéria orgânica. O processo gera biogás rico em metano, que deve ser queimado ou aproveitado, nunca liberado na atmosfera.
A operação é simples e se resume, em grande parte, ao descarte periódico do lodo excedente, tarefa que equipes locais treinadas conseguem executar. De acordo com Odair José Mannrich, a limitação está na qualidade do efluente: o tratamento anaeróbio remove boa parte da carga orgânica, mas normalmente precisa de uma etapa complementar para atingir os padrões de lançamento.
O que os wetlands construídos acrescentam ao tratamento?
Wetlands construídos são leitos preenchidos com brita ou areia e plantados com macrófitas, como a taboa. O esgoto percorre o meio filtrante na horizontal ou na vertical. Nesse percurso, a ação conjunta de raízes, microrganismos e substrato retém sólidos, degrada matéria orgânica e remove parte dos nutrientes e patógenos. Como pós-tratamento de um reator anaeróbio, o conjunto funciona sem energia elétrica e sem produtos químicos.

A contrapartida é a área; por depender de processos naturais, o wetland ocupa mais espaço do que uma estação compacta. Em zonas rurais e periurbanas, onde há terreno disponível, a exigência costuma ser viável; em bairros adensados, raramente é. O dimensionamento precisa considerar a vazão e a carga orgânica do esgoto, já que um leito subdimensionado satura e perde eficiência em pouco tempo.
Redes coletoras simplificadas reduzem a escavação
Nem todo sistema descentralizado dispensa rede. Quando as casas estão próximas, faz sentido coletar o esgoto de um grupo de moradias e levá-lo a uma unidade de tratamento comum. O sistema condominial, desenvolvido no Brasil, faz isso com ramais que passam por calçadas ou fundos de lote, em valas rasas e com tubos de pequeno diâmetro. Conforme observa Odair José Mannrich, a escavação menor permite a instalação manual de tubos plásticos leves em terrenos aonde máquinas pesadas não chegariam.
Outra variante usa tanques sépticos em cada lote para reter os sólidos antes da rede. Como o líquido chega sem material grosseiro, a tubulação pode ter declividade menor e caixas de inspeção simples no lugar de poços de visita. Em relevo acidentado, traçados que acompanham o terreno reduzem a necessidade de estações elevatórias, embora nem sempre a eliminem.
Quem cuida do saneamento descentralizado depois da obra?
É comum que sistemas descentralizados deixem de funcionar anos depois de inaugurados, sem que o projeto tenha falhado. Sem responsável definido pela operação, o lodo não é retirado, as plantas não são manejadas e o tratamento se deteriora. O quadro se agrava quando a unidade não aparece no planejamento municipal de saneamento e, por isso, fica fora de qualquer orçamento de manutenção. A definição de quem opera, com que recursos e sob qual fiscalização precisa acontecer antes da obra, e não depois.
A participação da comunidade no planejamento ajuda a escolher soluções compatíveis com a rotina local e cria vínculo com a estrutura instalada. Odair José Mannrich pondera que a integração com programas de saúde e educação ambiental completa o quadro, porque o morador que entende a relação entre esgoto tratado e doenças de veiculação hídrica tende a cuidar melhor do sistema.


