Na visão do ex-secretário de Saúde Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, as unidades móveis de mamografia carregam uma contradição: costumam ser apresentadas como solução para levar o exame a quem vive longe dos grandes centros, mas, sem planejamento, podem gerar mais exames do que a rede consegue acompanhar. Carretas e ônibus equipados com mamógrafo cumprem papel importante no acesso, desde que sejam comparados com honestidade aos serviços fixos e integrados ao restante do sistema.
O que as unidades móveis oferecem
A principal vantagem é a chegada a lugares onde não existe mamógrafo. Municípios pequenos, comunidades rurais e áreas afastadas passam a ter o exame a poucos quilômetros de casa, sem longas viagens nem custos de deslocamento.
A presença da unidade também tem efeito mobilizador. A chegada de uma carreta costuma ser divulgada pela comunidade, pelas unidades básicas e pela imprensa local, o que estimula mulheres que nunca fizeram mamografia a procurar o exame. Em pouco tempo, centenas de exames podem ser realizados em uma mesma localidade. Para mulheres com dificuldade de deixar o trabalho ou a família, a proximidade faz diferença decisiva.
O que o serviço fixo garante
O serviço fixo tem continuidade. A mulher sabe onde fazer o próximo exame, as imagens anteriores ficam armazenadas no mesmo local e a comparação entre mamografias, essencial para a interpretação, acontece com mais facilidade. A agenda pode ser organizada ao longo de todo o ano, sem depender da passagem de um equipamento itinerante.
A estrutura fixa também facilita a investigação dos casos alterados. Imagens complementares, ultrassonografia e biópsia costumam estar no mesmo serviço ou na mesma rede. Segundo Vinicius Rodrigues, a regularidade é o que transforma exames isolados em rastreamento, e é justamente nesse ponto que as unidades móveis encontram seu maior desafio.
Qualidade exige os mesmos cuidados
Os equipamentos das unidades móveis precisam seguir as mesmas regras de controle de qualidade dos serviços fixos. O transporte por estradas, as variações de temperatura e a instalação em locais diferentes exigem verificações frequentes para garantir que a imagem mantenha o padrão adequado.
A equipe técnica também precisa ser qualificada, e o laudo deve ser emitido por radiologista com experiência em mama, geralmente à distância, por meio de telerradiologia. Prazos claros para a entrega dos resultados evitam que os exames fiquem semanas sem leitura. O registro dos exames nos sistemas de informação do SUS garante que o resultado chegue à unidade básica de cada paciente.
O que acontece quando a carreta vai embora?
O ponto mais crítico está no seguimento. Uma parte das mulheres examinadas precisará de imagens complementares ou biópsia, e esses procedimentos raramente estão disponíveis na unidade móvel. Se não houver um serviço de referência definido antes da ação, as pacientes com resultado alterado podem ficar sem investigação.
Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, cada ação com unidade móvel deveria começar pelo planejamento do que vem depois: quem recebe os laudos, quem convoca as mulheres com achados suspeitos e para onde elas serão encaminhadas, com vagas e prazos garantidos.
Complemento, e não substituto
A comparação mostra que as unidades móveis e os serviços fixos têm funções diferentes. As primeiras ampliam o alcance e mobilizam a população; os segundos garantem continuidade, comparação de exames e investigação completa.
O melhor resultado aparece quando os dois modelos trabalham juntos e de forma planejada, com a unidade móvel funcionando como extensão de uma rede organizada. Conforme pondera Vinicius Rodrigues, o sucesso de uma ação itinerante não deve ser medido apenas pelo número de exames realizados, mas pela proporção de mulheres com resultado alterado que chegaram ao diagnóstico e ao tratamento no tempo adequado.


