Projeto Morro Pintado, de R$ 12 bilhões em Areia Branca, e a disputa global por protagonismo no combustível do futuro.
O Rio Grande do Norte vive um momento de inflexão econômica que poucas gerações terão a oportunidade de testemunhar. O estado, que já ocupa a segunda posição nacional em geração de energia eólica, com mais de 30% de toda a capacidade instalada no país segundo dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), começa agora a transformar esse potencial renovável em uma nova fronteira industrial: a produção de hidrogênio verde. Não se trata de uma aposta especulativa, mas de um movimento concreto, com licenças ambientais concedidas, acordos assinados com parceiros internacionais e projetos em fase de implantação. A pergunta que o leitor potiguar precisa responder para si mesmo é simples e decisiva: o RN está preparado para ocupar o lugar que esse novo ciclo econômico pode oferecer?
O que é o Projeto Morro Pintado e por que ele muda o jogo
O Projeto Morro Pintado, com investimento estimado em R$ 12 bilhões, prevê a instalação de uma usina de hidrogênio e amônia verdes em Areia Branca, no Rio Grande do Norte, com capacidade de 500 MW na primeira fase, suficiente para produzir cerca de 80 mil toneladas de hidrogênio verde por ano, incluindo ainda um terminal portuário próprio para exportação. O projeto já conta com a licença ambiental prévia concedida pelo Idema, órgão ambiental estadual, e foi apresentado internacionalmente durante a Hannover Messe 2026, maior feira de tecnologia industrial do mundo, realizada em abril, na Alemanha. O investimento, de 2 bilhões de euros, é resultado de parceria entre empresas brasileiras e alemãs, com participação da Brazil Green Energy, Green Investors, Thyssenkrupp Uhde, Siemens e Andritz, com apoio do governo alemão. Revista FórumExame
Areia Branca, município localizado a cerca de 280 km de Natal, já possui uma identidade econômica consolidada: é o maior polo salineiro do Brasil, concentrando entre 95% e 98% da produção nacional de sal marinho, segundo o Sindicato da Indústria da Extração do Sal do Estado do Rio Grande do Norte (Siesal-RN). O Terminal de Areia Branca, construído entre 1969 e 1974, movimenta cerca de R$ 300 milhões por ano na economia local e gera aproximadamente 4 mil empregos diretos. A chegada do Projeto Morro Pintado representa, portanto, não a substituição de uma vocação econômica, mas a inauguração de um segundo ciclo produtivo sobre a mesma base logística e geográfica que já provou seu valor ao longo de décadas. Movimento Econômico
Por que o RN tem vantagens reais sobre a concorrência
O Rio Grande do Norte desponta como área estratégica para a produção de hidrogênio verde em larga escala, com municípios como Mossoró, São Miguel do Gostoso e Tibau concentrando vantagens logísticas, proximidade com polos de geração renovável e disponibilidade de áreas para complexos industriais. A base do argumento competitivo do estado é energética: a produção de hidrogênio verde depende do processo de eletrólise da água, que exige grandes volumes de energia renovável. O Rio Grande do Norte projeta R$ 127 bilhões em investimentos em hidrogênio verde, incluindo US$ 20 bilhões em aportes diretos, com o estado respondendo por 30,7% da potência eólica instalada no país, com 368 parques em operação. Movimento EconômicoInvestindoporai
Além do potencial energético, o estado conta com um marco regulatório pioneiro. A governadora Fátima Bezerra sancionou a Lei do Marco Legal do Hidrogênio Verde e da Indústria Verde, enquanto o Idema elaborou uma resolução regulamentando o licenciamento ambiental de projetos de hidrogênio verde, normatizada com aval da Procuradoria Geral do Estado. Esse conjunto de instrumentos jurídicos e ambientais confere a segurança que investidores estrangeiros demandam antes de comprometer bilhões em uma região. Não por acaso, o pesquisador Raniere Rodrigues, coordenador do Atlas de Hidrogênio Verde do RN, publicado pelo SENAI-RN, projeta que o estado poderá alcançar custos de produção competitivos entre 2030 e 2035, em linha com projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Agência Internacional de Energia (IEA). CPG Click Petróleo e GásMovimento Econômico
Desafios que o entusiasmo não pode esconder
A narrativa do hidrogênio verde como salvação econômica merece ser lida com atenção às complexidades que ela carrega. Segundo a consultoria Rystad Energy, mais de 1.000 projetos de hidrogênio verde já foram anunciados globalmente, representando US$ 350 bilhões em investimentos, com o Brasil entre os dez primeiros no ranking de projetos anunciados, o que evidencia uma corrida competitiva intensa. Chile, Egito, Namíbia, China, Estados Unidos e Alemanha disputam o mesmo mercado com políticas públicas robustas e, em alguns casos, vantagens financeiras mais agressivas do que as oferecidas pelo lado brasileiro. Movimento Econômico
Internamente, o principal gargalo é a infraestrutura de transmissão. O hidrogênio verde surge como alternativa para a capacidade limitada das redes de transmissão do Nordeste, região que mais enfrenta curtailment no país, apesar de ser a maior produtora de energia limpa em larga escala. A ideia é que, em vez de perder energia por falta de capacidade de escoamento para o Sudeste, o estado possa converter esse excedente em hidrogênio armazenável e exportável. Há também a questão da formação de mão de obra especializada. O Centro de Excelência em Formação Profissional para Hidrogênio Verde do SENAI-RN é um passo na direção certa, mas a escala do setor exigirá muito mais do que uma única instituição pode entregar sozinha. Revista Fórum
O Rio Grande do Norte está diante de uma oportunidade histórica, mas o caminho entre o anúncio bilionário e o emprego gerado na cidade de Areia Branca passa por decisões técnicas, regulatórias e políticas que ainda estão sendo construídas. Acompanhar esse processo com espírito crítico é tão importante quanto celebrar os avanços.
Fontes: Revista Fórum | Movimento Econômico | Exame | Investindo Por Aí | Agora RN


